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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sobre o Desapego dos Bens


Homilia proferida por São Gregório Nazianzeno, Séc. IV

O sábio não se gabe de sua sabedoria, o rico não se glorie de sua riqueza (Jr 9,22), o forte de sua fortaleza, mesmo que tenham chegado ao cume da sabedoria, da riqueza e do poder. De minha parte, acrescentarei algo semelhante: não se exalte pela sua glória quem é famoso e célebre; pela sua robustez quem goza de ótima saúde; pela sua formosura o que é belo; pela sua idade quem é jovem; numa palavra, nenhum soberbo ou vaidoso se ufane de qualquer coisa, que suscita louvor neste mundo; pelo contrário, quem se gloria, glorie-se de uma só coisa: de conhecer e de buscar a Deus e de, compadecendo-se dos infortunados, armazenar bens para a vida eterna.

O resto, frágil e passageiro como num jogo de bola, é lançado e transferido de uma a outra mão. Ninguém possui algo que escape à usura do tempo ou que, com desagrado, não passe a outrem. Quanto aos outros bens, são estáveis, seguros, jamais hão de falhar ou de dissolver-se; jamais será frustrada a esperança de quem neles confia.

Por que razão nenhuma posse é estável e duradoura nesta terra? Por que tudo aquilo, apesar de feito pelo Verbo e sua sabedoria que supera nossa inteligência, nos deixa desiludidos? Por que as coisas mudam, ora num sentido ora noutro, ora são exaltadas ora rebaixadas e, antes de tê-las nas mãos, já nos escapam e fogem? Parece-me que a razão de tudo isso está no fato de sua própria instabilidade e variedade nos incitarem a nos dirigirmos ao porto da vida futura. Na verdade, o que faríamos se – embora flutuante e frágil – a prosperidade fosse inabalável, para nós que estamos acorrentados e reduzidos à escravidão por sua falaciosa avidez, a ponto de pensarmos que não existe algo de melhor e de mais precioso que as coisas da terra? E tudo isso ocorre, embora estejamos convictos de que fomos criados à imagem de Deus, que está no céu e nos atrai a ele.

Quem é sábio, compreenda (Sl 106/107,43). Quem é capaz de abandonar as coisas transitórias, de cuidar das que não passam, de considerar os bens presentes como se não existissem? Feliz aquele que com a espada do Verbo sabe discernir entre o bem e o mal e separá-los; deixando de lado o mal, decide em seu coração principiar a santa peregrinação, como diz o salmista Davi; fugindo deste vale de lágrimas procura, com todas as suas forças os bens do alto; crucificado para o mundo com Cristo, com Cristo ressurge e com ele sobe ao céu, herdeiro de uma vida que não passa nem decepciona, onde a serpente não nos morde no percurso nem arma ciladas ao calcanhar, já lhe tendo sido esmagada a cabeça.

O profeta Miquéias, observando este fato, exclama, zombando dos répteis e de tudo aquilo que de bem só tem a aparência: De pé! Andai, não é hora de descanso! (Mq 2,10). Neste mesmo sentido, exorta-nos nosso Senhor e Salvador: Levantai-vos! Vamo-nos daqui! (Jo 14,31). Com tais palavras, transferia daquele lugar não só os que eram então seus discípulos, mas também todos os outros que viessem a crer; desprendia da terra e dos bens terrenos todos os seus seguidores, a fim de orientá-los para o céu e seus tesouros.

Sigamos, portanto, o Verbo; procuremos o repouso prometido; desprezemos as riquezas e o conforto desta vida, enriquecendo-nos somente com o que tenham de bom. Sejamos salvos pelas esmolas, distribuindo aos pobres os nossos haveres, a fim de nos engrandecermos com os bens celestes.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A CONTINÊNCIA DO ESTÔMAGO - PREPARAÇÃO PARA O NATAL

Iniciamos na última segunda-feira, dia 15 de novembro (28 de novembro no Calendário Civil), o jejum preparatório para a  celebração da Grande Festa do Natal. esta preparação também é chamada de "Quaresma de Natal", por se tratar de um jejum com duração de 40 dias, tal como a Quaresma da Páscoa, embora o jejum natalino seja menos rigoroso que o da Páscoa.

Para ajudar na compreensão do que vem a ser o jejum na Igreja Ortodoxa, estamos publicando o ensinamento de nosso Pai João Cassiano (360-435 dC), que serviu a Deus como monge na França.

Esse texto foi traduzido da Filokalia, e se refere à terapêutica que nosso Abba João compartilha com seus discípulos visando combater a paixão da gula.

"Primeiramente irei falar da continência do ventre, a qual se contrapõe à gula. Falaremos como fazer os jejuns e qual deve ser a qualidade e a quantidade dos alimentos. Não falarei baseado em minha própria experiência, senão da que temos recebido de nossos santos Padres, os quais não tinham uma única regra para o jejum e nem mesmo uma única maneira de comer os alimentos, tampouco nos ensinaram uma medida, uma vez que nem todos que jejuam tenham a mesma capacidade, seja por causa da idade, por doença, ou por uma constituição física frágil. Há, no entanto, um único objetivo: fugir da saciedade e evitar ficar de estômago cheio. 

Certo jejum diário tem sido considerado mais vantajoso e mais adequado para conduzir-nos à pureza do que um jejum que se arraste por três, quatro dias e até mesmo uma semana. Diz-se que o jejum que se prolonga sem medida é seguido por um período de excesso na alimentação. Assim, é possível que a abstinência exagerada de alimentos provoque perda de vigor físico, tornando-o preguiçoso em seu exercício espiritual, tanto quando o corpo, sentindo-se pesado pelo excesso de alimentos, torna a alma preguiçosa e relaxada. 
Os Padres consideravam que não é adequado para todos uma alimentação à base de verduras e legumes, nem se alimentar diariamente de pão duro. Observaram que um pode comer dois pães e continuar com fome, ao passo que outro comendo apenas um, ou metade de um pão, se sinta saciado. Tal como dissemos, a única regra que nos transmitiram é esta: que não nos deixemos enganar pela saciedade do estômago e nem ser atraídos pelo prazer da gula. Com efeito, não somente a variedade dos alimentos, mas também as distintas quantidades dos mesmos, são capazes de nos inflamar com a flecha flamejante da fornicação. E ainda mais, não é somente o excesso de vinho que é capaz de embriagar nossa mente, mas  o excesso de água ou de qualquer outra comida podem tornar a mente aturdida e sonolenta. A causa da destruição dos sodomitas, não foi a embriaguez produzida pelo vinho ou pelos variados alimentos, mas por causa da saciedade de pão, tal como nos diz o profeta.[1] 
A debilidade do corpo não nos impedirá de alcançar a pureza do coração se dermos ao corpo o que lhe é necessário, e não o que demandam os prazeres. Devemos utilizar os alimentos tanto quanto o necessário para nos mantermos com vida e não para que nos induzam a servir os impulsos do apetite. Uma ingestão moderada de alimentos, conforme entendemos ser necessária para manter o corpo saudável não fere em nada a santidade. A regra da continência e a norma exata que nos transmitiram os Padres, é esta: Qualquer que seja o alimento que se esteja ingerindo deverá cessar quando ainda temos apetite, evitando a saciedade. Quando o Apóstolo nos diz para não nos ocuparmos com os desejos da carne (Romanos 13:14), não estava proibindo o necessário para nos manter com vida, mas intentava proibir um comportamento que nos induza à volúpia. 
Além do mais, para se alcançar uma pureza perfeita de alma, não é suficiente a abstenção de alimentos; outras virtudes são necessárias. Muito beneficia a realização de trabalhos humildes e a fatiga do corpo, assim como também grande proveito em fugir do amor ao dinheiro (o que significa, não somente não ter dinheiro, como também evitar deseja-lo ansiosamente): estas coisas realmente levam a alma à pureza. O abster-se da ira, da tristeza, da vanglória, da soberba, tudo isto, produzem, em geral, a pureza da alma. No entanto, particularmente, a pureza da alma, fruto da moderação, se obtém com a continência e com o jejum, pois, é impossível, em nossa carne, combater a fornicação, estando com o estômago cheio. Portanto, nossa primeira luta será por alcançar a continência do estômago e a subjugação do nosso corpo, não somente por meio do nosso jejum, como também velando com esforço, com a leitura e com o recolhimento do nosso coração, temendo a gehena e desejos por alcançar o Reino dos Céus".





[1] Ezequiel 16:49